Biografia
O poeta português e magistrado António Barbosa Bacelar nasceu em Lisboa, em 1610, em uma família simples cuja situação financeira era modesta e suficiente para arcar com as despesas.Faleceu em 1663, diagnosticado com demência. Bacelar estudou no Colégio de Santo Antão e logo em seguida começou a frequentar o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Ele trabalhou no meio da magistratura, mas não deixou de lado o trabalho com a História e com a poesia.
Dentre suas escritas historiográficas, predominantemente em prosa, estão a “Revolução Diária do Sítio e “Vida de D. Francisco de Almeida”; e suas obras poéticas estão, em sua maioria, publicadas na “Fénix Renascida” – umas das duas importantes antologias em que foram separados os poemas barrocos, juntamente ao “Postilhão de Apolo”, mas grande parte delas são díficeis de ser encontradas, pois não foram publicadas ou compartilhadas. Dentre as poesias acessíveis estão “A uma Ausência”, “A umas Saudades”, “A uma Dama” e “Retratos de um bêbado”.
Antonio Barbosa foi um poeta da corrente cultista e um grande fiel de Luís de Camões. Por isso, empregava muitas antíteses em seus textos,figura de linguagem muito presente na escrita camoniana, além de fazer parte das principais características da literatura cultista. Bacelar traz sua individualidade à tona e faz dela a razão de seus problemas, colocando-as em forma de sonetos.
Alguns sonetos escritos por Antonio Barbosa Bacelar:
A uma Ausência
Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal que me consome me sustenta,
O bem que me entretém me dá cuidado.
Ando sem me mover, falo calado,
o que mais perto vejo se me ausenta,
E o que estou sem ver mais me atormenta;
Alegro-me de ver-me atormentado,
Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo.
Mas, se de confiado desconfio,
É porque, entre os receios da mudança,
Ando perdido em mim como em deserto.
A umas Saudades
Saudades de meu bem, que de noite e dia
Acalma atormentais, se é vosso intento
Acabardes-me a vida com formento,
Mais lisonja será que tirania.
Mas, quando me matar vossa porfia,
De morrer tenho tal contentamento,
que em me matando vosso sentimento,
Me há-de ressuscitar minha alegria.
Porém matai-me embora, que pretendo
Satisfazer com mortes repetidas
O que à beleza sua estou devendo.
Vidas me dai para tirar-me vidas,
Que ao grande gosto com que as for perdendo
Serão todas as mortes bem devidas.
Podemos encontrar os traços da literatura cultista no emprego de antíteses como em “ando sem me mover, falo calado”, nos clichês abordados, no uso de metáforas e hipérboles, no jogo de palavras, que nos permite construir imagens mentais, na confusão mental em que se encontram o autor e no pessimismo, quando ela trata da morte e acredita que morrer seja a melhor opção, além do hermetismo – díficil compreensão de um texto.
Outros poemas do autor:
- Retrato de um Bêbado
- A uma Dama
- À Variedade do Mundo
- Amoroso Desdém de um Belo Agrado
Referências Bibliográficas:
POESÍA Ibero America: Antonio Bacelar Barbosa. Disponível em: <http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/portugal/antonio_barbosa_bacelar.html> Acesso em: 24/05/2020
ANTÓNIO Barbosa Bacelar in Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-05-26 13:49:57]. Disponível em: <https://www.infopedia.pt/$antonio-barbosa-bacelar> Acesso em: 24/05/2020
MOISÉS, Maussad. A literatura portuguesa. 37. ed. Brasil: Cultrix, 2010.
BELTHER, Janice. Barroco Português – Poesia. 2018. 51 slides.
ANTÓNIO Barbosa Bacelar. Poemas. Disponível em: <https://www.citador.pt/poemas/a/antonio-barbosa-bacelar> Acesso em: 24/05/2020.
Análise da poesia A Uma Ausência
“Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal que me consome me sustenta,
O bem que me entretém me dá cuidado.
Ando sem me mover, falo calado,
o que mais perto vejo se me ausenta,
E o que estou sem ver mais me atormenta;
Alegro-me de ver-me atormentado,
Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo.
Mas, se de confiado desconfio,
É porque, entre os receios da mudança,
Ando perdido em mim como em deserto.”
Grande quantidade de figuras de linguagem:
- Paradoxo: “sinto-me sem me sentir”, “confiado desconfio”, “ando sem me mover”, “falo calado”
- Antítese: “o mal que me consome me sustenta, o bem que me entretém me dá cuidado”
- Paranomásia: “confiado desconfio”
- Metáfora/comparação: “ando perdido em mim como em deserto”
Pessimismo e confusão mental – O autor está tão transtornado que sente-se alegre em estar atormentado (8º verso), chora e ri ao mesmo tempo (9º verso), não tem a capacidade de confiar em si mesmo (11º verso) e sente-se perdido nele mesmo (14º verso).
Oposição entre o bem e o mal – Nos dois últimos versos da primeira estrofe podemos notar a dualidade bem x mal quando o autor diz que o mal o consome e o bem o entretém.







